7.4.06

O Homem que não sabia viver com a sua sombra

Quando se apercebeu que a sua Sombra o perseguia, ainda que sempre se imiscuindo de ser Ela a determinar o percurso, o Sujeito julgou ser já demasiado tarde. Pior que medo de gato escaldado de água fria, desatou correndo, sem destino, desamparado, delirado. A sombra gostou do jogo, seguiu-o insistente e de igual passo, e com evidente menos cansaço. Correu assim uma manhã e a tarde que se lhe seguiu enquanto de noite dormiu descansado, da sombra abandonado. Na manhã seguinte voltou a correr fugindo sempre em frente sem direcção aparente, e na tarde e na manhã e em todas as tardes e manhãs por aí fora. Correu na vã expectativa de fugir da sua próxima sombra durante exactamente três anos, um mês, dezoito dias e vinte e três horas; Assumiu sua, essa anónima tarefa, durante o período que justo antes se referiu até que a passos tantos, e suores muitos o Sujeito, se sentou num qualquer incógnito banco de jardim. Abriu as pernas, sobre elas deixou cair as mãos vermelhas do esforço e a cara, inchada como que se de álcool ingerido se tratasse, olhou em frente tomando o calor forte do Sol que tinha exacta e resplandecente à sua frente e então fechou os olhos. Suspirou fundo, muito fundo e sentiu salgada a lágrima que não conseguiu deixar de largar pela incontornável prisão de se ter de viver uma vida inteira controlado por uma sombra. Aí a lassidão entorpeceu-lhe os membros como nunca e foi assim, sem decisão propriamente tomada que se deixou ficar novamente três anos, dois meses, dezoito dias e vinte e três horas sem fazer rigorosamente nada, num incógnito banco de jardim. Por três vezes se deixou cobrir por caducas e amareladas folhas, três vezes se deixou cobrir tão de branco que chegou a parecer feito de nuvem, três vezes desabrochou e se deixou florir e outras três vezes se deixou passar por encima por esquilos, e demais animaizinhos em alegres brincadeiras de estação farta. Foi com um desses animaizinhos lambendo-lhe as bochechas salgadas das lágrimas que nunca deixaram de jorrar durante todo esse período que acordou tão subitamente como antes se havia deixado adormecer. Olhou em frente e atordoado, viu uma luz branca intensa que mal lhe permitiu abrir as pálpebras. Esfregou os olhos, limpou as lágrimas e pediu educamente ao esquilo que se lhe fosse da face. Então reconheceu claramente a luz. Era a mesmíssima que em ultimo havia visto fazia já três anos e pouco, ainda que da demora da data não tivesse o Sujeito a absoluta consciência. Olhou-a, tomou-lhe parte da energia como sua e esboçou o primeiro sorriso em seis anos, três meses, seis dias e vinte e duas horas. Nesse mesmo momento, como se algo ou alguém o quisera impedir de ser genuinamente feliz pela primeira vez em tantos anos ocorreu-lhe pensar na sua própria sombra e o sorriso foi-se, sôfrego, em menos tempo que o que se sabe até aos dias de hoje, medir. Olhou em volta e nada. Uma vez e outra e nada. Pensou por momentos que a sombra, essa maldita guarda da sua vida o tivesse abandonado. Pensou que se os Homens todos pudessem, como ele, dormir durante anos a fio, a sombra os abandonaria e iria incomodar outros animais ou objectos. Pensou inclusive e tão seriamente, na possibilidade de estar morto que se beliscou. Fê-lo com tanta desmesurada vontade que o sangue jorrou violento e escorreito do braço para o chão. E ei-lo e ei-la! O sangue da vida! Com ele, a rebelde impingem da sombra acompanhando o seu sangue em linha directa e, como se recordava, sem nunca eleger por si própria o percurso que melhor julgasse para ela. Soltou o maior berro da história da humanidade até então soado, uma vez e uma segunda e outra até ficar sem voz. Enquanto isto, havia-se levantado, girado cento e cinquenta e um graus sobre os seus calcanhares e encarado de frente a sombra que, desta feita, não lhe respondia como por vezes lhe costumava fazer o eco quando lhe falava assim. Uma vez a voz ida, virou-se novamente e, com o coração chorando fininho e desesperado lá dentro, deixou-se cair desta vez no chão, disposto a desistir. Chegou inclusivamente a pensar fazê-lo com multiplas beliscadelas, por ser um processo que já controlava e pelo prazer sádico, que quanto a ele, não lhe restava outro que não esse, de ver a sombra sofrer devagarinho ainda que com ele, numa saga trágica de dois amantes tornados mortos por não saberem viver juntos. Nestes trâmites fúnebres estava, quando reparou que, ao deixar-se cair no chão a havia deixado ficar por detrás das costas. Imóvel deixou-se quedar firme tentando calcular quanto tempo mais puderia prolongar esse estado de graça. Fez cálculos mil de cabeça, até se decidir pela conclusão que nem de perto lhe parecia a mais acertada cientificamente – que se lixe a ciência – mas que certamente mais lhe convinha: A Sombra tem medo do Sol! Seria por decisão, por metabolismo ou por trauma da própria da sombra mas apenas nesse momento de silêncio de quem esgotou a voz por não encontrar razões de a utilizar mais nem melhor é que o Sujeito se apercebeu que entre o Sol e a Sombra, desde que se conseguia lembrar, havia estado sempre Ele próprio. Ousou deduzir que a sombra tanto temia o Sol que havia decidido esconder-se dele, Nele; Se já antes havia tentado tão desesperadamente fugir sem nunca alcançar perdê-la pelo caminho, o que melhor teria a fazer seria olhar o Sol. Sem medos, sem resguardos, sem falsos caminhos nem atalhos de circunstância. Se o olhasse de frente, sem medo, buscando nele a energia que claramente a sombra não desejava – talvez por isso fosse negra... – talvez pudesse viver com ela pelas costas, simplesmente sem nunca a ver. Sem melhor solução que essa de perseguir o Sol, ergueu-se, respirou fundo e de pé direito na lide, encetou o caminho de ‘Lucky Luke’ rumo ao Sol sem nunca ter descoberto como se fazia isso de disparar mais rápido que a Sombra. Este foi o primeiro pensamento positivo que teve e posto este nunca teve outro que não fora de igual sinal. Ele era mais do que o Lucky Luke porque havia aprendido a viver com a própria sombra! Pela vida fora, essa foi a vida do Sujeito. Uma vida inteira - ou o que lhe restava dela, que é para todos sempre mais do que esperamos – de peito cheio, sempre iluminado e fosse para onde fosse – deveu-o à sombra - sempre sem olhar para trás.

3 Comments:

Blogger maria borboleta said...

Brutal! Adorei... Fico sem saber o que dizer. Esgotaste as minhas palavras.

4/09/2006 11:04 da manhã  
Blogger pekolareko said...

prefiro as estórias do LUKcy Luke!!!!
ta fixe....um abraço

4/10/2006 1:49 da tarde  
Blogger Arroz de Estragão said...

Nunca vi nada teu que me tivesse impressionado tanto!

Muito obrigado.

Um abraço, meu amigo

4/11/2006 4:35 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home